A história da Rua Barão de Icaraí Quem foi o Barão de Icaraí ? A Rua Barão de Icaraí em detalhes





















A Rua Barão de Icaraí começa na Avenida Osvaldo Cruz entre os nºs 28 e 46, terminando na Rua Senador Vergueiro entre os nºs 173 e 177.  Está localizada totalmente nos limites do bairro do Flamengo.


















Foto de satélite, do site Google Earth.

A rua tem 200 metros de extensão, com mão única de direção de tráfego, no sentido da Rua Senador Vergueiro para a Avenida Osvaldo Cruz.  A maioria de seus prédios é de utilização residencial, existindo, entretanto, uma extensa galeria comercial a partir da esquina da Rua Senador Vergueiro, justamente no terreno que era de propriedade do Barão de Icaraí.  É o chamado "Shopping Um Sete Sete", assim designado por este ser o seu endereço pela Senador Vergueiro.

No trabalho de Cruvello Cavalcanti, "Nova Numeração dos Prédios da Cidade do Rio de Janeiro", de 1878-79, não há registro deste logradouro, nem da Rua Marquês de Paraná.  Apenas aparecem os nomes do Barão de Icaraí e da Marquesa de Paraná como proprietários, residentes nas ruas Senador Vergueiro 49-55 e Marquês de Abrantes 27-31, respectivamente.

A Rua Barão de Icaraí era inicialmente chamada de Travessa do Barão de Icaraí e recebeu o nome atual ainda no final do século XIX, confirmado pelo Decreto nº 1.165 de 31.10.1917.

Na verdade, especula-se que ela tenha sido originalmente a trilha, nos anos quinhentos e seiscentos, que servia de ligação do Caminho da Pedreira (depois Caminho Velho de Botafogo e hoje Rua Senador Vergueiro) ao Morro da Viúva, de onde os colonizadores portugueses tiraram as pedras para erguer as primeiras construções do Rio de Janeiro, inclusive o Mosteiro de São Bento.  Teria, portanto, mais de 400 anos de existência, tal como a Senador Vergueiro.

Antes da abertura da Avenida Beira-Mar/Ligação/Osvaldo Cruz por Pereira Passos, no início do século XX, a Rua Barão de Icaraí começava na Senador Vergueiro, terminando na Rua Maria Emília, esta ainda com dois quarteirões.

Com o advento da nova avenida, a Icaraí foi então prolongada até ela, ao mesmo tempo em que se eliminava o segundo quarteirão da Maria Emília, devido às minúsculas dimensões com que ficaria a quadra fronteira à avenida, impossibilitando qualquer aproveitamento para construção.

É o que nos mostra o PA de 1907, reproduzido a seguir:












espaço reservado para foto do Barão de Icaraí



Constantino Pereira de Barros

Barão de Icaraí

(1821-1896)


Constantino Pereira de Barros, o Barão de São João de Icarahy, foi um nobre da Côrte do Brasil Império, Oficial da Ordem da Rosa, nascido no Rio de Janeiro em 27.1.1821 e falecido em 15.1.1896, na sua residência, à Rua Senador Vergueiro 57 (atual 177), tendo seu corpo sido sepultado no Cemitério São João Batista.

Era filho de Joaquim José Gomes de Barros e de Januária de Figueiredo Pereira.

O Barão (por decreto de 14.3.1867) era capitalista e proprietário de grande área entre a Senador Vergueiro e o Morro da Viúva, onde abriu, além da rua que leva o seu título nobre, várias outras com os nomes de seus familiares mais próximos.

Entre as suas propriedades no final do século XIX, estava a própria pedreira do Morro da Viúva, próxima de sua chácara, como nos informa o Almanak Laemmert de 1882:

A região do Morro da Viúva pertencia à viúva de Joaquim Figueiredo Pessoa de Barros, que assim deu origem ao nome do morro.  Pelo que se depreende dos têrmos do Almanak Laemmert, o Barão de Icaraí adquiriu da viúva Barros a pedreira no morro.

A grande chácara do Barão tinha como limites a Rua Senador Vergueiro, a Praia do Flamengo (Cruvello Cavalcanti em 1879 registra os terrenos de nº 76 ao último, nº 92, da Praia, como de propriedade do Barão) e as ruas Barão de Icaraí e Cruz Lima.

O Barão de Icaraí casou-se no Rio, em 21.6.1845, com a paulista (de São Sebastião) D. Maria Emilia Carneiro Leão, falecida em Menton, na França, em 17.12.1895, havendo ocorrido a transladação de seu corpo para o Brasil, para sepultamento no Cemitério São João Batista em 18.7.1906.

Maria Emília era filha dos Marqueses de Paraná, Honório Hermeto e Maria Henriqueta Carneiro Leão, que residiam nas proximidades, em extensa chácara na Rua Marquês de Abrantes (à época ainda chamada de Caminho Novo de Botafogo) entre as atuais ruas Fernando Osório e Marquês de Paraná, e com saída também pela Senador Vergueiro.

O Marquês de Paraná, no início de sua vida pública, havia sido nomeado juiz em São Sebastião, no litoral paulista, onde nasceu Maria Emília.

Os Barões de Icaraí tiveram quatro filhos, a saber:

1ª - Maria Januária Carneiro Leão de Barros, n. Rio 12.3.1846, f. Le Mans, França, 31.7.1936.  Primeiras núpcias no Rio em 15.7.1865 com Dr. Sizenendo Barreto Nabuco de Araujo.  Segundas núpcias no Rio em 1901 com Hamilton Paulino da Silva (Visconde de Hamilton Pires).

2ª - Maria Joaquina Carneiro Leão de Barros, n. Rio 17.3.1847, f. Rio 22.7.1901.  Casou-se no Rio em 13.5.1872 com Joaquim Teixeira Guerra.

3º - Honório Hermeto Carneiro Leão de Barros, n. Rio 27.8.1849, f. Rio 14.9.1906.  É o Honório de Barros que deu nome à rua do entorno.  Casou-se no Rio em 29.11.1878 com Umbelina Virginia de Oliveira, que também deu seu nome à Travessa na região, hoje Rua Senador Euzebio.  Umbelina, f. em 9.7.1921, era filha de Manoel José de Oliveira e Virginia de Araujo.  A filha mais velha do casal chamava-se Maria Emilia de Barros (n. Rio 4.11.1879) e casou-se no Rio em 20.9.1898 com Alvaro de Freitas Guimarães.  A caçula era Noemia de Barros, n. Rio 14.7.1881 e f. solteira em 6.6.1901.

4º - Constantino Carneiro Leão de Barros, n. Rio 13.2.1853.  Casou-se com Eugenie Juliette Léon.  A filha do casal chamava-se Antonia, n. Rio 11.5.1898.

A repetição dos prenomes dos pais nas gerações seguintes faz com que tenhamos de ser muito cuidadosos na pesquisa.  Mesmo assim, pode haver a possibilidade de enganos causados por uma interpretação errônea.  Por exemplo, o Marquês de Paraná chamava-se Honório Hermeto Carneiro Leão. O Barão de Icaraí deu ao seu terceiro filho o nome de Honório Hermeto Carneiro Leão de Barros.  A diferença nos dois nomes é tão somente o "de Barros".  Muito cuidado, pois, para não se confundir com as pessoas.

As ruas abertas no final dos anos oitocentos na propriedade do Barão receberam inicialmente esses nomes que se acham sublinhados, mas após alterações havidas em algumas, são hoje, respectivamente, as ruas Princesa Januária (ex-Travessa Januária), Honório de Barros, Senador Euzebio (ex-Travessa Umbelina), Gabriela Mistral (ex-Rua Maria Emilia) e Samuel Morse (ex-Rua Constantino).  Identifique-as no mapa mais abaixo, no final desta página.


É interessante notar que a Rua Maria Emília (atual Gabriela Mistral) então se prolongava até a Rua Honório de Barros, mas esse segundo quarteirão desapareceu, quando da reurbanização da área, motivada pela abertura da Avenida da Ligação (hoje Osvaldo Cruz) na década inicial dos anos novecentos.

Ao lado, em reprodução monocromática, o brasão do Barão de São João de Icaraí: em campo azul, uma banda de ouro carregada de três flores de lis em azul, entre um carneiro de prata à direita e um leão também de prata à esquerda.  Divisa: "Parcitas et Labor".



(obs.: nossos agradecimentos ao Colégio Brasileiro de Genealogia, do Rio de Janeiro, pelas informações deste tópico)








Parentes em ruas contíguas: conforme comentamos na página da Rua Arno Konder, não são muitos os casos de parentes com seus nomes em ruas contíguas, nos mais de vinte e dois mil logradouros públicos oficialmente reconhecidos do Rio.

O Flamengo hoje participa desse seleto grupo com a Rua Barão de Icaraí, que tem como sua paralela na quadra seguinte, na direção Botafogo, a Rua Honório de Barros.  Conforme já vimos, Honório era filho dos Barões de Icaraí.

Como relatamos no tópico anterior, outras ruas da região enquadravam-se nessa situação, mas, à semelhança do que aconteceu em Ipanema, elas mais tarde tiveram seus nomes alterados.

O caso da Rua Princesa Januária parece ser mais um pequeno mistério do bairro.  A homenageada inicialmente seria a filha mais velha dos Barões de Icaraí, Januária, e assim a Travessa recebeu seu nome no final do século XIX.

Conforme já dissemos, Januária nascera em 1846.  Mas com ela ainda viva (só faleceu em 1936), em 12.9.1927, pelo decreto nº 2.649, alguém resolveu antepor o título "Princesa" ao nome do logradouro, talvez para lhe dar um toque de nobreza, e que também se viu transformado de Travessa em Rua.

Ou teria sido uma mudança de homenagem, agora para recordar a irmã de D. Pedro II?

Passados oitenta anos, fica dificil conseguir saber o porquê dessa alteração.

Outro morador ilustre da Rua Barão de Icaraí foi, ainda nos tempos do Brasil Império, Joaquim Vidal Leite Ribeiro (1816-1883), o Barão de Itamarandiba.

Até que, após a Segunda Guerra Mundial, o bairro do Flamengo foi "copacabanizado", com os imponentes casarões do século anterior sendo demolidos para dar lugar aos edifícios de apartamentos.

Nº 26 - Embaixada da Bélgica - Já no século XX, também nela se localizou a Embaixada da Bélgica, no nº 26, na esquina da Rua Princesa Januária.  Com a inauguração de Brasilia e a consequente transferência da Embaixada, o prédio passou a abrigar durante algum tempo o Consulado Geral do país amigo, hoje na Torre Rio Sul, em Botafogo.  E a antiga casa, no nº 26, deu lugar a um moderno edifício no final dos anos novecentos.

Mas nessa mesma esquina, em 2007, ainda resistem duas velhas construções, abrigando uma academia de ginástica e uma escola.



















A Rua Barão de Icaraí, a partir da esquina da Rua Senador Vergueiro,
na direção da Avenida Osvaldo Cruz.  Foto de n/arquivos (2007)

E veja em Flamengo - O Bairro em Gotas - A Casa de Pedra a história da Itaoca, a Casa de Pedra, a primeira construção dos portugueses nas terras cariocas, feita em 1531, e que teve sua localização estimada como tendo sido na confluência da Rua Princesa Januária com a antiga Travessa Umbelina (atual Rua Senador Euzebio).



















As ruas Barão de Icaraí, Princesa Januária, Maria Emília (Gabriela
Mistral) e Constantino (Samuel Morse),
e a Travessa Umbelina
(Senador Euzebio)
.  No centro da figura, o "X" assinala
o local onde provavelmente foi construida em 1531 a Itaoca,
a Casa de Pedra.  PAA nº 2.640, de 1936, da PCRJ/SMU.